ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

No mês de julho damos prosseguimento ao projeto de entrevistas com mulheres profissionais da arte, um campo muito mais vasto do que nos é apresentado. Reforçamos nosso intuito de, a partir de entrevistas com diferentes profissionais atuantes do campo das artes, suas profissões e colaborações se tornem cada vez mais visíveis ao público em geral.

A NaPupila Julia Baker entrevistou a arquiteta de formação Bel Xavier. Bel atua pensando plasticamente o espaço, trazendo suas experiências com cinema, televisão e artes visuais para sua prática enquanto profissional. Criado uma “direção de arte” ao pensar suas expografias, Bel nos conta um pouco de sua trajetória enquanto mulher inserida no campo das artes.

NAPUPILA Minha primeira pergunta é saber como você começou a atuar na área das artes visuais. Sempre foi um interesse ou foi algo que surgiu quando você foi conhecendo este campo?

BEL XAVIER – Venho de família de classe média baixa e arte nunca fez parte do meu cotidiano familiar. Sempre foi um interesse pessoal e, desde adolescente, eu gostava de ir a exposições e ao cinema. Quando entrei para a Faculdade de Arquitetura na USP (FAU-USP), um novo mundo se abriu. Minha aula magna foi ministrada por Milton Santos. Apesar deste ter sido o primeiro e único contato com um professor negro durante toda a graduação, a FAU-USP tem um currículo com uma multiplicidade invejável de disciplinas: projeto arquitetônico, design gráfico, paisagismo, planejamento urbano, programação visual, história da arte, história da arquitetura, laboratório de fotografia, de marcenaria entre tantas outras coisas e, tudo isso lecionado por professores que eram referência em suas áreas. Fiz ainda parte do grêmio da faculdade – entidade representativa dos estudantes – , colaborando com as pautas da política estudantil. Ter vivenciado tudo isso expandiu minha cabeça e meu olhar de uma maneira que eu nem fazia ideia que poderia ser possível.

Meu primeiro estágio, durante a graduação, foi na Mostra do Redescobrimento: Brasil+500, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Ter feito parte desta exposição grandiosa foi um segundo marco. Depois de fazer curso de monitoria sobre toda a mostra, me concentrei no núcleo Olhar distante, que expunha arte produzida por artistas-viajantes estrangeiros. Tive contato com obras do Frans Post, Albert Eckhout, Anselm Kiefer, entre outros, cotidianamente. Fazíamos visitas de formação com os curadores e alguns especialistas. Foi uma experiência maravilhosa e, com certeza, formadora do meu olhar. Tenho lembranças de muitas das obras com as quais convivi naqueles quase 6 meses, com aquela expografia diversa e algumas vezes duvidosa, e multiplicidade de linguagens expográficas da Mostra, de obras de arte, de curadorias, tiveram um grande impacto em minha formação profissional e pessoal.

Ao mesmo tempo, na faculdade, frequentava a disciplina de história da arte com Luciano Migliaccio. Lembro de sair das aulas apaixonada pelo renascimento italiano, por Giotto e Bernini. A partir desta experiência, desse mergulho profundo nas artes, eu já sabia que não seria uma arquiteta “normal”, de projeto e construção civil, como se denominava antigamente. Depois disso, comecei a estagiar no núcleo de cenografia da TV Cultura de São Paulo e trabalhei com excelentes profissionais que faziam os programas infantis Cocoricó e Rá-Tim-bum. Como estagiária de cenografia participava das gravações do programa da Inezita Barroso, Viola minha Viola, enfim, mergulhei no mundo da cenografia para televisão, que foi a minha grande escola, onde fiz amigos para toda a vida. No entanto, apesar de todo esse contato riquíssimo com a cenografia de televisão, meu tema do trabalho final de graduação foi em torno de arquitetura de exposição.

Em 2003, fui para Londres estudar inglês e fiz cursos ligados a cinema, na Central Saint Martins College of Art and Design, de Storyboard e direção de arte para cinema. No fim do meu primeiro ano em Londres, comecei a trabalhar em um escritório de arquitetura, motivo pelo qual estendi minha estada, inicialmente programada para um ano, por quase três anos. Ter morado em Londres me permitiu viajar bastante, frequentar todos aqueles museus incríveis e gratuitos, questionar todos os dias porque toda aquela pilhagem era tão comemorada, me entender brasileira e latino-americana e, sobretudo, conviver com pessoas e culturas do mundo inteiro. Ao voltar para Brasil, em 2006, mergulhei no cinema e publicidade. Fiz cenografia e assistência de direção de arte para longa metragens como Cilada.com, Nosso Lar; Plastic City, Paredes Nuas, Aparecida: o Milagre, e a série Som e Fúria; dirigida por Fernando Meirelles, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Assinei a direção de arte do filme Meu amigo Hindu, de Hector Babenco; do curta O olho zarolho, dirigido pela Juliana Vicente e René Guerra e de videoclipes como Marighella, dos Racionais Mc’s (vencedor do prêmio de videoclipe do Ano pelo VMB 2012 da MTV). Desde 2013, trabalho intercalando exposições e projetos audiovisuais.

NP – Além de atuar em museus e exposições, você trabalha como production designer para audiovisual. Por que a atuação em mais de uma área e como tem sido o percurso nelas ? Quais as semelhanças e discrepâncias entre as áreas?

B.X. – São duas áreas de paixão e interesse e, no meu entender, juntas trazem mais camadas para ambos os trabalhos. Entendo que uma exposição é um dispositivo para instigar perguntas e criar narrativas. Quando penso em meu ofício, eu o definiria como storytelling design, que se adapta a diferentes mídias, ao cinema e a exposição, e que no passado recente se chamava direção de arte. 

Minha atuação, em ambas as áreas, como arquiteta de exposições e como production designer, inclui ter muitas pessoas qualificadas trabalhando juntas para implementar um conceito de design, no qual a colaboração é fundamental para sua concepção. Além da criação, os principais aspectos do meu trabalho são planejamento, gerenciamento de orçamentos, cronograma de implementação e supervisão de conjuntos de construção. O planejamento e a experiência organizacional são cruciais para gerenciar processos e garantir que os projetos sejam bem organizados e entregues.

Uma característica de trabalhar como profissional independente, ou freelancer por vários anos é que, para cada novo empreendimento, é necessário começar do zero, reunindo equipe e recursos relevantes para o projeto. E a partilha de conhecimento e experiência são fundamentais para ambas atuações.

Ambos os meios, cinema e artes visuais, são restritos e fechados. Trabalhar nestas áreas é um ato de resistência, já que temos poucas mulheres negras em posição de criação nestas áreas. Tenho a impressão que neste quesito as artes visuais são menos inclusivas do que o cinema, que já apresenta um estado grave.

Tenho uma formação e atuação múltipla, no entanto é difícil não se condicionar a rótulos. A pesquisa em artes visuais é outro campo que também me agrada muito. Estou, por exemplo, finalizando um mestrado em Artes Visuais onde pesquiso imagens de levantes e resistência de uma exposição itinerante internacional. Meu percurso profissional é mesmo sinuoso, e penso que o entrecruzamento destas áreas o faz mais rico.

NP – Você já atuou, enquanto profissional, tanto na esfera institucional quanto na esfera independente. Sente muita diferença em relação a forma trabalha? Acha que, enquanto mulher, as diferenças se acentuam mais em algum desses cenários?

B.X. – Sim, existe uma grande diferença. Posso falar sobre minha experiência na esfera institucional em museus públicos, que são sempre mais engessados em todos os sentidos e as remunerações estão muito aquém do que os profissionais deveriam receber, no entanto, quando se trabalha em uma instituição, você fica íntima do acervo. Acervo e pesquisa estão intimamente ligados e, trabalhar em uma instituição te permite um olhar mais acurado e profundo sobre esses acervos, pois o tempo debruçado sobre a pesquisa é maior, e sua contribuição muito mais rica.

Montagem Ao Amor do público (MAR)

Tive muita sorte em trabalhar em duas instituições maravilhosas, o MAR, no Rio de Janeiro, e ver o seu acervo em formação e o nascimento de um grande museu público; e em São Paulo, no CCSP, que tem um acervo mantido e ventilado através do esforço pessoal de profissionais que amam o que fazem, pois mantêm um enorme e fundamental patrimônio brasileiro com recursos mínimos. Vejo esse achatamento, a falta de recursos como um todo, o número reduzido de profissionais, a defasagem salarial, como parte de um grande programa de desmonte da cultura e patrimônio brasileiro, que leva, por exemplo, à falta de manutenção e política de prevenção adequadas, e que se traduz em tragédias como o incêndio do Museu Nacional e, mais recentemente, do Museu de História Natural da UFMG. Tal condição justifica ainda a gestão das Organizações Sociais como maneira de otimizar e agilizar processos institucionais, mas que no fundo é feita como um programa de negócios e não uma gestão de patrimônio. Esse é um problema profundo e pouco debatido na esfera da cultura brasileira, que tem tantas urgências. 

Gosto de trabalhar e circular nos dois ambientes, no institucional e independente. Porém, ter acesso à recursos maiores, quando atuo como arquiteta independente, é uma situação mais sedutora para quem cria e constrói espaços de exposições, pois me permite experimentações.

Não vejo diferença, como mulher negra, do machismo e misoginia na esfera institucional e independente. Estes se apresentam de maneira estrutural em todas as camadas.

NP – Vários casos de misoginia e machismo apareceram nos últimos anos nos espaços da arte, lembro do caso de uma funcionária do Moma PS1 que foi convidada a ocupar um cargo de curadoria mas, ao anunciar sua gravidez, foi dispensada. Você já presenciou ou vivenciou alguma situação no campo das artes em que sentiu tratamento diferente por ser mulher? Percebe algum caminho possível para amenizarmos tais problemas?

B.X. – Sim, já presenciei e vivenciei. No Brasil, quem disser o contrário, ou está mentindo ou não quer identificar o problema. No meu caso, por ser negra, é ainda mais grave. Dentro das instituições ou como colaboradores, vemos pouquíssimos profissionais pretos que tenham visibilidade, porque profissionais negres bons e capacitados temos aos montes. É bastante incômodo não ter pares, ser a única negra quando se trata da equipe criação de projetos, seja na esfera institucional ou como profissional independente, o que já ocorreu algumas vezes. Grande parte das atividades relacionadas à concepção e execução, desde a gerência institucional, a produção, a arquitetura, a pesquisa, são compostas por pessoas brancas. A grande maioria das exposições que fiz foi com homens brancos na curadoria.

A normalidade desta situação, a ausência de negros nos espaços de decisão e poder, além de ser um dado racismo estrutural brasileiro, espelha o contexto social contemporâneo, refletindo a sociedade brasileira como um todo, onde urge um desejo de mudança. Não acredito que haverá melhora significativa nesta questão se não for através de legislação, através de cotas em todas as esferas, desde conselhos de museus, cargos de liderança, etc. Temos que pressionar as instituições para posicionamento e mudança efetiva.

Creio que estamos vivenciando um momento importante de mudança, e pela primeira vez estou trabalhando em um projeto de exposição onde a equipe curatorial e de pesquisa, além da equipe de design e parte da produção é toda negra. Vejo esse momento como um divisor de águas, onde as estruturas estão sendo abaladas.

NP – Você é mãe e, assim como muitas mulheres possui uma jornada dupla e, por vezes até tripla. Encontrou ou encontra muitas dificuldades ou falta de compreensão por possuir esses múltiplos papéis? É possível formar redes de apoio para mulheres em situações semelhantes dentro das próprias instituições.

B.X. – Sim, a jornada é mesmo dupla, tripla. Encontrei sim algumas dificuldades e falta de compreensão e, por incrível que pareça, vindo de mulheres, o que me entristeceu ainda mais. A misoginia está impregnada estruturalmente na cultura brasileira. As redes de apoio femininas têm sido bastante inspiradoras e cada vez mais vejo mulheres se posicionando como mães e profissionais. Creio que temos que discutir estas questões na esfera pública como de âmbito social e não feminino. O acesso a rede de educação, o papel do estado na primeira infância, a desigual divisão do trabalho doméstico, da carga mental, as situações que colaboram com a dificuldade da mulher se manter competitiva na esfera profissional são questões que precisam ser refletidas por toda a sociedade e não deveriam ser vistas como de pautas femininas.

NP – Dos seus trabalhos de expografia, tem algum que foi mais marcante? Pode contar um pouco de como foi é o seu processo de trabalho.

B.X. – Eu gosto muito do meu ofício, sobretudo porque sempre aprendo muito sobre o tema com o qual estou em contato. No caso da exposição, cada projeto é único, com sua característica institucional e temática.

Colaborei, por exemplo, com a exposição itinerante, Revelações Olímpicas, em 2016, com uma expografia pensada para ficar no tempo, ao ar livre. A exposição mostrava imagens selecionadas do concurso de fotografia com o mesmo nome, cujo tema tratava dos impactos dos megaeventos esportivos nas comunidades do Rio de Janeiro: remoções forçadas, militarização das favelas, mobilidade limitada na cidade, elitização dos espaços públicos, além de outras violências e violações dos direitos. Foi montada primeiramente na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro e depois circulou por diversos lugares, como Museu da Maré, Vila Autódromo, e UFRJ. As discussões que aquela exposição gerou e o acesso proporcionado pelo sua circulação à pessoas que normalmente não frequentam galerias ou museus para ver uma exposição de fotografia, foi o que mais me atraiu neste projeto.

Tenho especial afeto pelas exposições nas quais colaborei com Paulo Herkenhoff, com quem sempre aprendo muito. Trabalhar junto ao Herkenhoff, além de me fazer adquirir um repertório vastíssimo sobre arte brasileira, me fez desenvolver habilidade especial para pensar criticamente exposições com um número grande de obras de diferentes artistas, grande circulação de pessoas, e com muita ênfase ao projeto educativo, às visitas escolares. Fizemos, juntos no MAR, duas exposições deste tipo com cerca de 300 obras e, com as mesmas características, a exposição de inauguração do SESC 24 de Maio, São Paulo não é uma cidade – com co-curadoria de Leno Veras – cujo resultado estético me agradou muito. Também gosto bastante da proposta estética e curatorial da exposição Lívio Abramo: Vigor e Lirismo, que montamos na Biblioteca Mário de Andrade (SP) e fez um panorama das obras do artista em diferentes fases.

Montagem São Paulo não é uma cidade (SESC 24 de Maio)

Outro projeto que considero bastante especial, por sua temática de resistência museal, foi a expografia para Arte Naif, nenhum museu a menos, de 2019, montada nas cavalarias da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nesta exposição, o desafio foi lidar com cerca de 300 obras do acervo do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil, combinados às obras de arte contemporâneas, com materialidades bastante distintas, pensadas na curadoria política de Ulisses Carrilho e equipe. Esta montagem foi uma importante exposição-manifesto, por seu caráter de denúncia em favor da manutenção das instituições culturais brasileiras e sua liberdade de expressão.

Normalmente os projetos têm duração de cerca de quatro a seis meses, entre elaboração e acompanhamento de execução. Tempo este que é curto para projetos de médio e grande porte, como os que normalmente faço. O ofício de arquitetura de exposições demanda trocas com múltiplas equipes, como de curadoria, produção, museologia, iluminação, tecnologia e equipamentos, cenotecnia e montagem, durante o processo. E inclui, além da pesquisa, algumas etapas de entrega de projeto, como estudo preliminar, anteprojeto, projeto e projeto executivo.

O momento da montagem da exposição é, para mim, muito especial, e comparável à um set de filmagem, onde apesar do planejamento minucioso de cenas e seus efeitos, muitas vezes o que vemos é mudado ou rearranjado no calor da cena, determinado por uma série de fatores como resposta à atuação dos atores ao roteiro, ângulo e movimento de câmera, iluminação, som, entre outros, onde os envolvidos no processo percebem, no momento da captação, qual seria o melhor encaminhamento para a narrativa daquela cena específica. Podemos dizer que a exposição também sofre rearranjos devido ao pensamento influenciado pelo choque, pensado à maneira de Eisenstein, obtido pela justaposição, a fricção de obras.

Ao pensar como se executa a montagem, podemos afirmar que a própria se performa como um gesto. O gesto de montagem é similar ao gesto de uma dança, assim como o pensamento, se movimenta em ziguezague, em busca de respostas inexistentes para questões inquietantes.

Bel Xavier Arquiteta, diretora de arte e mestranda em Artes Visuais, mescla a prática da direção de arte de projetos culturais, nas áreas de cinema, exposições, à pesquisa e ensino atuando nas esferas públicas e privadas.
http://www.belxavier.com/



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