Editatona Artes+Feminismos – Maternagens

Editatona Artes+Feminismos – Maternagens

A coletiva de pesquisa NaPupila, através da parceria com o Wiki Movimento Brasil (WMB) por meio do incentivo da Wikimedia Foundation, convidam você a integrar no evento online Editatona Wikipédia: Artes+Feminismos | Maternagens Ciclo de Conversas + Tutorial Wiki On-line na plataforma Zoom.us 19 de […]

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

Seguimos com nossas entrevistas junto com as profissionais da arte com uma conversa conduzida por Julia Baker com a produtora cultural Stella Paiva. A entrevistada nos conta um pouco do seu percurso na área, mostrando como a produção atua em conjunto com artistas, curadores, montadores, […]

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

Passamos nossa vida educando e sendo educados, em uma eterna troca de cadeiras entre esses papéis afinal, o estudante tem tanto a oferecer quanto o professor, o tutor. Educação invade espaços, não é apenas na sala de aula, com um quadro branco ou, atualmente, na frente do computador, que ela se dá. Os espaços educacionais são múltiplos e, em instituições culturais e museais, a educação aparece para questionar, criar fissuras e possibilitar diálogos e reflexões a respeito das artes.

A educação e a arte caminham ou, deveriam, caminhar juntas. O papel do educador em um museu, apesar de não ser valorizado por certas instâncias é essencial para a instituição. Em um espaço de cubo branco, que poderia se entregar a monotonia de corpos passantes, o educador está lá para questionar o trajeto, fazer o espectador desafiar o que lhe é dado. Com muita felicidade trazemos a entrevista da educadora Bruna Camargos para a seção de profissionais da arte. Bruna atua em educação pensando a no espaço social e artístico. Sua entrevista, cedida gentilmente a Julia Baker, faz uma importante crítica ao valor que as instituições concedem aos profissionais da educação. São micro políticas cotidianas que não valorizam a importância desses indivíduos nos quadros das instituições. Exemplos no período pandêmico não faltaram desde uma maior precarização do trabalho até demissões em massa dos corpos educativos. Bruna nos mostra como as relações são prévias ao momento atual e a diferença que profissionais dedicados à área fazem no campo das artes.

NAPUPILA – Conte um pouco sobre sua formação e como você se envolveu no campo de educação em arte.

BRUNA CAMARGOS – Foram as práticas comunitárias e as pedagogias populares que me fizeram adentrar no campo da educação museal, essas experiências marcam meu interesse de pesquisa e ação. 

Sou de uma zona periférica do subúrbio carioca, cria da favela de Parada de Lucas, estudante da rede pública de ensino. Nessa época, nas décadas de 1990 e 2000, podemos dizer que os movimentos sociais foram os grandes responsáveis pela formação de um repertório crítico e artístico nas periferias. Existia e ainda existe um campo muito desigual no acesso aos equipamentos culturais e no ensino das artes. 

Neste universo das organizações sociais, trabalhei por 6 anos na ONG AfroReggae, coordenando projetos na interlocução entre arte, cultura, educação e mobilidade social. Em 2006, iniciei a graduação em História, na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, momento em que o sistema de cotas estava dando seus primeiros passos na democratização do acesso e nas profundas transformações no ensino superior do país. Atuar diretamente no campo da educação era um desejo e um horizonte de formação. Antes de começar a trabalhar em museus, fiz uma pós-graduação em Relações Internacionais, como aluna bolsista no Ibmec

Na minha trajetória o diálogo entre arte, educação e história começa a se materializar na pesquisa de mestrado em História Social da Cultura na PUC-Rio. Foi nesse momento, também, em 2015, que comecei a trabalhar como educadora de projetos na Escola do Olhar no Museu de Arte do Rio (MAR). Acredito que a minha seleção para ocupar a vaga, para além da formação, estava intrinsecamente ligada às experiências comunitárias. Na época, orientado pelo desejo de construir uma polícia de ação com os moradores da região portuária, o Museu tinha como proposta a formulação de uma agenda com o território que passava pela mediação cultural, tendo no Programa Vizinhos do MAR, um dos eixos estruturantes de conformação do programa de educação da Escola do Olhar. 

A experiência no MAR foi fundamental para a minha formação como educadora. Os debates, conexões e os repertórios mobilizados com a equipe e o ambiente de criação na Escola do Olhar são vivências que me acompanham e reverberam no meu pensamento sobre o campo. Não posso deixar de citar a importância que Janaina Melo e Gleyce Kelly Heitor tiveram nessa formação e na abertura da educação museal como campo profissional na minha trajetória. Desde então, venho me dedicando à prática educativa em instituições e projetos culturais. Entre outras atuações, estive como coordenadora pedagógica na Universidade das Quebradas e como Coordenadora de educação no Instituto Inhotim (2019-2020), sempre interessada no diálogo entre movimentos sociais e mediação cultural, na interface entre educação, museu, cidade e território.

De fato, como público tardio de museus, passei a questionar a função dos museus “ditos tradicionais”, a lógica classista do ensino da arte e as narrativas historicamente institucionalizadas. Acredito que a arte e o incentivo à imaginação, com todos os seus caminhos de errância, de dúvida, são direito fundamentais. Esta relação com sensível amplia os mundos, a consciência, é capaz de nos levar a processos profundos de cura. Tais pensamentos são o diálogo que me interessa estabelecer com a educação em arte, caminhos que são contraponto a manutenção do poder e do status quo, que colocam em evidência, também, todo o processo de exclusão e precarização das vidas que existem nos museus e no sistema de artes.

NP – Você acha problemática a forma como a área de educação é tratada em instituições? Como você enxerga a relação entre curadoria-artistas-educadores nos espaços de museus e instituições culturais?

B.C. – Acho super problemática. As instituições, em sua grande maioria, repetem a lógica de desvalorização da educação que vemos em muitos lugares. Se por um lado a educação está no centro discursivo dos projetos de museus e instituições culturais, na prática devemos nos perguntar como isso acontece. Qual o comprometimento dessas instituições na valorização da educação? Esse comprometimento precisa perpassar a dinâmica do trabalho, as condições materiais e discursivas. Poderíamos falar a partir de muitos lugares, mas vou chamar a atenção para um fato importante dentro da lógica capitalista que vivemos: como é a folha de pagamento da equipe de educação nessas instituições? Qual o regime de contrato desses educadores? Quanto recebem pelo trabalho oferecido? Este pagamento está em consonância com as exigências do cargo? 

Falar da relação entre curadoria-artistas-educadores é abordar muitas nuances. Fazendo uma generalização da questão, digo que muitas vezes o estabelecimento dessa relação depende de quem está ocupando essas posições, outras vezes, depende de como a instituição enxerga essas posições. Temos experiências de envolvimentos e diálogos profundos em projetos expositivos dessas três entidades nomeadas aqui. Exposições em que educadores são chamados para dialogar com artistas e curadores desde o princípio dos projetos, levando em consideração os lugares de fala, repertórios e experiências. Existem muitos artistas e curadores interessados no diálogo com a educação. Além de uma posição híbrida entre esses campos: curadores-educadores, educadores-curadores, curadores-artistas, artistas-curadores, educadores-artistas, artistas-educadores. 

Por outro lado, sabe-se de casos em que a curadoria, toma a educação como um repositório e repetição, que basta o compartilhamento dos textos de parede e de pesquisas curatoriais para que o trabalho da educação seja realizado, realmente existem curadores que acham um estorvo ou não veem necessidade em trocar com a educação, entendendo este como um trabalho menor. O mesmo ocorre na relação de alguns artistas com os educadores, cuja intenção é informar como estes devem operar ou fazer a leitura de seus trabalho com o público. 

NP – É interessante notar que existe uma grande presença feminina na área de educação nos museus e espaços culturais. Você acha que já existe igualdade de gênero nesta área? Acha que ainda existem limitações criadas para as mulheres nessa área da cultura?

B.C. – A grande presença feminina na área de educação dos museus e espaços culturais guarda profundas relações com a história/conquistas das mulheres no mercado de trabalho e, também, com as desigualdades e subjulgos de gênero e raça. Numa sociedade de extremo controle das corpas e corpos, erguida numa lógica patriarcal, o trabalho no magistério era tido como uma profissão “aceitável” para mulheres, daí uma presença substancial de mulheres na educação. Ainda nessa superfície, podemos nos perguntar se a desvalorização da educação no país se instaura, entre outras, nessa chave de leitura.  Eu acredito que esta é uma possibilidade.

Não se trata da desigualdade salarial no exercício da profissão entre mulheres e homens, mas na compreensão do campo sobre a ótica de gênero, uma leitura social da educação como um campo menos valorizado por estar historicamente ligado à presença feminina. Num aprofundamento e complexidade no debate é preciso racializar a questão, uma vez que, assim como nas nossas estruturas, temos uma racialização que nos foi imposta na composição de mundos da branquitude.

Por exemplo, podemos pensar que para muitas mulheres, e me refiro a mulheres negras, não existia o debate do que eram as profissões “aceitáveis” e sim uma exploração destes corpos, incluindo o trabalho. A leitura do livro Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade, de bell hooks, colabora bastante nessa discussão.

Então, se olharmos para o campo da educação hoje em espaços culturais e em museus, o que temos são as limitações enquanto agenda e ausência/presença de certas corpas e corpos nas instituições. Acredito que o debate contemporâneo passa por este lugar, precisamos prestar atenção a comunicação, as significações e elaboração de pensamentos que surgem a partir da agenda e ocupação de lugares pelas corpas e corpos negros e LGBTQIA+ nessas instituições.

Se o campo da educação em artes nos permite elaborar criticamente o passado, presente e partilharmos horizontes de futuros, temos que discutir a relação deste campo e das instituições com a garantia e a existência de cidadanias múltiplas.

NP – Mediador, educador, arte-educador; existem vários profissionais ligados a área de educação nas artes mas, muitas vezes não entendemos as nuances e diferenças de atuação. Você poderia contar um pouco sobre como cada um desses profissionais atua e suas diferenças.

B.C. – Essas nuances são difíceis de compreender, muitas das vezes trata-se de um mesmo trabalho realizado por educadores que terão nomeações de cargos diferentes de acordo com o organograma das instituições e isso dificulta bastante o reconhecimento da profissão. Muitas das vezes essa diferenciação de nomenclatura dos cargos não se dá na diferenciação de atuação e sim no regimento de contratação. Por exemplo, estagiários são contratado como mediadores, enquanto CLTs são contratados como educadores ou arte-educadores. Nesse sentido, gostaria de chamar atenção para o grande número de contratações que se instauram nas instituições sobre o regime de prestadores de serviços, como os MEI, ou estagiários.

Este tipo de procedimento, cada vez mais comum e recorrente, é um enfraquecimento do campo e se torna ainda mais grave quando estamos falando de instituições cuja definição está alicerçada na sua função social e educativa. Não falo somente dos museus e instituições de arte, mas das variadas tipologias dessas instituições.

No campo da educação museal tivemos muitos avanços, principalmente se pensarmos a partir dos anos 1950 até aqui, é um campo de atuação que está em constante transformação, em diálogo direto com a sociedade. Mas, temos discussões de longa data que não foram superadas no exercício da profissão, o reconhecimento como categoria e sua regulamentação é um desses debates. Temos profissionais de diferentes campos do conhecimento atuando como educadores em museus e instituições de arte, e isso é um ganho para o diálogo transdisciplinar tão necessário para a relação com o campo artístico. Existem formações (que estão fora da categoria disciplinar do conhecimento) e habilidades específicas requeridas para a atuação com a educação museal. Nesse sentido, de um maneira simplista, diria que a mediação está para a educação museal como a didática está para os professores em sala de aula. Se na vivência cotidiana de museus e instituições culturais, a necessidade de formação constante desses educadores ainda é um lugar de disputa, temos alguns documentos que encaminham essas diretrizes, como o Plano Nacional de Educação Museal (PNEM) e o Plano Nacional Setorial de Museus (PNSM).

Por fim, retomo a necessidade de regulamentação e de um plano de carreira para a profissão, para que tenhamos condições e tempo comprometido no desenvolvimento de um pensamento sistêmico da prática educativa e suas inovações metodológicas.

NP – Quais são os principais desafios, para você, no campo de educação nas artes, pensando o momento atual e na reestruturação dos espaços culturais?

B.C. – Continuarmos existindo. Os desafios colocados não são de agora, mas adquirem uma maior dimensão neste momento de crise. Estamos lidando de maneira mais acelerada com os desafios que o século XXI nos impõe, como o usos das tecnologia e as novas formas de linguagem, leitura da realidade e de mundos. Nada disso é uma novidade no universo de discussões da educação museal, mas a intensidade das respostas e sua articulação sim.  Estamos reimaginando nossas atuações, a forma de relação e produção de sociedades. Acredito que isto vai ampliar não somente as expertises de atuação na educação museal, incorporando novos saberes e profissionais à área, mas, também, ampliar o debate de questões, que a educação museal vem tomando para si – tais como: diálogo, participação, inclusão, acessibilidade -,  para outros setores dos espaços culturais. Mas nada disso, está posto numa dinâmica apaziguada, estamos lidando com um modelo hegemônico capitalista que naturaliza a cultura como um produto, onde afetos e vidas se formulam em vendas, negócios e exclusões. 

Isso nos leva a outro desafio, o aspecto econômico, que está ligado a descontinuidade de projetos, enfatizando a vulnerabilidade de certos setores profissionais dentro dos espaços culturais. Assistimos uma série de demissões e suspensão de contratos de trabalho de educadores, receptivos, seguranças, profissionais ligados a limpeza desses espaços e etc, essa escolhas dizem muito à respeito dos desafios que temos pela frente, do que estamos falando e elaborando quando atuamos com educação, que tipo de práticas de educação em artes emergem desses espaços a partir dessas escolhas de futuro? 

O que nos leva de volta a discussão sobre a profissionalização do setor e do comprometimento que as instituições culturais têm com as vidas.  Qual o papel dessas instituições na reflexão, na produção do conhecimento, no estabelecimento de novas coletividades, na participação democrática, nas agendas de cuidado? Não se trata de retirar o importante papel de entretenimento que as instituições culturais tiveram e têm na manutenção da saúde mental, trata-se de questionar a centralidade desse papel na atuação que tivemos num primeiro momento de isolamento social devido a pandemia de Covid-19.  O que os museus e instituições culturais podem fazer na reimaginação do presente? O que e quais são os aprendizado do momento  que vivemos?

Bruna Camargos – Mestre em História Social da Cultura, educadora e pesquisadora. Suas vivências têm dialogado com movimentos sociais e mediação cultural, na interface entre arte, educação, museu, cidade e território.


ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

O profissional do restauro e conservação dificilmente é reconhecido com frequência pelo público em geral. Só lembramos dele quando casos exdrúxulos ganham os jornais, como no caso do restauro de um afresco com a imagem de Jesus em uma igreja na Espanha. Porém colecionadores e […]

Editatona Artes+Feminismos I Arte Trans

Editatona Artes+Feminismos I Arte Trans

Ciclo de Conversas + Tutorial Wiki | 29 de agosto de 2020 | 14h às 19h – On-line na plataforma Zoom.us A coletiva de pesquisa NaPupila e Brume Dezembro, através da parceria com o Wiki Movimento Brasil (WMB) e a Secretaria de Estado de Cultura […]

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

ENTREVISTAS – PROFISSIONAIS DA ARTE

No mês de julho damos prosseguimento ao projeto de entrevistas com mulheres profissionais da arte, um campo muito mais vasto do que nos é apresentado. Reforçamos nosso intuito de, a partir de entrevistas com diferentes profissionais atuantes do campo das artes, suas profissões e colaborações se tornem cada vez mais visíveis ao público em geral.

A NaPupila Julia Baker entrevistou a arquiteta de formação Bel Xavier. Bel atua pensando plasticamente o espaço, trazendo suas experiências com cinema, televisão e artes visuais para sua prática enquanto profissional. Criado uma “direção de arte” ao pensar suas expografias, Bel nos conta um pouco de sua trajetória enquanto mulher inserida no campo das artes.

NAPUPILA Minha primeira pergunta é saber como você começou a atuar na área das artes visuais. Sempre foi um interesse ou foi algo que surgiu quando você foi conhecendo este campo?

BEL XAVIER – Venho de família de classe média baixa e arte nunca fez parte do meu cotidiano familiar. Sempre foi um interesse pessoal e, desde adolescente, eu gostava de ir a exposições e ao cinema. Quando entrei para a Faculdade de Arquitetura na USP (FAU-USP), um novo mundo se abriu. Minha aula magna foi ministrada por Milton Santos. Apesar deste ter sido o primeiro e único contato com um professor negro durante toda a graduação, a FAU-USP tem um currículo com uma multiplicidade invejável de disciplinas: projeto arquitetônico, design gráfico, paisagismo, planejamento urbano, programação visual, história da arte, história da arquitetura, laboratório de fotografia, de marcenaria entre tantas outras coisas e, tudo isso lecionado por professores que eram referência em suas áreas. Fiz ainda parte do grêmio da faculdade – entidade representativa dos estudantes – , colaborando com as pautas da política estudantil. Ter vivenciado tudo isso expandiu minha cabeça e meu olhar de uma maneira que eu nem fazia ideia que poderia ser possível.

Meu primeiro estágio, durante a graduação, foi na Mostra do Redescobrimento: Brasil+500, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Ter feito parte desta exposição grandiosa foi um segundo marco. Depois de fazer curso de monitoria sobre toda a mostra, me concentrei no núcleo Olhar distante, que expunha arte produzida por artistas-viajantes estrangeiros. Tive contato com obras do Frans Post, Albert Eckhout, Anselm Kiefer, entre outros, cotidianamente. Fazíamos visitas de formação com os curadores e alguns especialistas. Foi uma experiência maravilhosa e, com certeza, formadora do meu olhar. Tenho lembranças de muitas das obras com as quais convivi naqueles quase 6 meses, com aquela expografia diversa e algumas vezes duvidosa, e multiplicidade de linguagens expográficas da Mostra, de obras de arte, de curadorias, tiveram um grande impacto em minha formação profissional e pessoal.

Ao mesmo tempo, na faculdade, frequentava a disciplina de história da arte com Luciano Migliaccio. Lembro de sair das aulas apaixonada pelo renascimento italiano, por Giotto e Bernini. A partir desta experiência, desse mergulho profundo nas artes, eu já sabia que não seria uma arquiteta “normal”, de projeto e construção civil, como se denominava antigamente. Depois disso, comecei a estagiar no núcleo de cenografia da TV Cultura de São Paulo e trabalhei com excelentes profissionais que faziam os programas infantis Cocoricó e Rá-Tim-bum. Como estagiária de cenografia participava das gravações do programa da Inezita Barroso, Viola minha Viola, enfim, mergulhei no mundo da cenografia para televisão, que foi a minha grande escola, onde fiz amigos para toda a vida. No entanto, apesar de todo esse contato riquíssimo com a cenografia de televisão, meu tema do trabalho final de graduação foi em torno de arquitetura de exposição.

Em 2003, fui para Londres estudar inglês e fiz cursos ligados a cinema, na Central Saint Martins College of Art and Design, de Storyboard e direção de arte para cinema. No fim do meu primeiro ano em Londres, comecei a trabalhar em um escritório de arquitetura, motivo pelo qual estendi minha estada, inicialmente programada para um ano, por quase três anos. Ter morado em Londres me permitiu viajar bastante, frequentar todos aqueles museus incríveis e gratuitos, questionar todos os dias porque toda aquela pilhagem era tão comemorada, me entender brasileira e latino-americana e, sobretudo, conviver com pessoas e culturas do mundo inteiro. Ao voltar para Brasil, em 2006, mergulhei no cinema e publicidade. Fiz cenografia e assistência de direção de arte para longa metragens como Cilada.com, Nosso Lar; Plastic City, Paredes Nuas, Aparecida: o Milagre, e a série Som e Fúria; dirigida por Fernando Meirelles, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Assinei a direção de arte do filme Meu amigo Hindu, de Hector Babenco; do curta O olho zarolho, dirigido pela Juliana Vicente e René Guerra e de videoclipes como Marighella, dos Racionais Mc’s (vencedor do prêmio de videoclipe do Ano pelo VMB 2012 da MTV). Desde 2013, trabalho intercalando exposições e projetos audiovisuais.

NP – Além de atuar em museus e exposições, você trabalha como production designer para audiovisual. Por que a atuação em mais de uma área e como tem sido o percurso nelas ? Quais as semelhanças e discrepâncias entre as áreas?

B.X. – São duas áreas de paixão e interesse e, no meu entender, juntas trazem mais camadas para ambos os trabalhos. Entendo que uma exposição é um dispositivo para instigar perguntas e criar narrativas. Quando penso em meu ofício, eu o definiria como storytelling design, que se adapta a diferentes mídias, ao cinema e a exposição, e que no passado recente se chamava direção de arte. 

Minha atuação, em ambas as áreas, como arquiteta de exposições e como production designer, inclui ter muitas pessoas qualificadas trabalhando juntas para implementar um conceito de design, no qual a colaboração é fundamental para sua concepção. Além da criação, os principais aspectos do meu trabalho são planejamento, gerenciamento de orçamentos, cronograma de implementação e supervisão de conjuntos de construção. O planejamento e a experiência organizacional são cruciais para gerenciar processos e garantir que os projetos sejam bem organizados e entregues.

Uma característica de trabalhar como profissional independente, ou freelancer por vários anos é que, para cada novo empreendimento, é necessário começar do zero, reunindo equipe e recursos relevantes para o projeto. E a partilha de conhecimento e experiência são fundamentais para ambas atuações.

Ambos os meios, cinema e artes visuais, são restritos e fechados. Trabalhar nestas áreas é um ato de resistência, já que temos poucas mulheres negras em posição de criação nestas áreas. Tenho a impressão que neste quesito as artes visuais são menos inclusivas do que o cinema, que já apresenta um estado grave.

Tenho uma formação e atuação múltipla, no entanto é difícil não se condicionar a rótulos. A pesquisa em artes visuais é outro campo que também me agrada muito. Estou, por exemplo, finalizando um mestrado em Artes Visuais onde pesquiso imagens de levantes e resistência de uma exposição itinerante internacional. Meu percurso profissional é mesmo sinuoso, e penso que o entrecruzamento destas áreas o faz mais rico.

NP – Você já atuou, enquanto profissional, tanto na esfera institucional quanto na esfera independente. Sente muita diferença em relação a forma trabalha? Acha que, enquanto mulher, as diferenças se acentuam mais em algum desses cenários?

B.X. – Sim, existe uma grande diferença. Posso falar sobre minha experiência na esfera institucional em museus públicos, que são sempre mais engessados em todos os sentidos e as remunerações estão muito aquém do que os profissionais deveriam receber, no entanto, quando se trabalha em uma instituição, você fica íntima do acervo. Acervo e pesquisa estão intimamente ligados e, trabalhar em uma instituição te permite um olhar mais acurado e profundo sobre esses acervos, pois o tempo debruçado sobre a pesquisa é maior, e sua contribuição muito mais rica.

Montagem Ao Amor do público (MAR)

Tive muita sorte em trabalhar em duas instituições maravilhosas, o MAR, no Rio de Janeiro, e ver o seu acervo em formação e o nascimento de um grande museu público; e em São Paulo, no CCSP, que tem um acervo mantido e ventilado através do esforço pessoal de profissionais que amam o que fazem, pois mantêm um enorme e fundamental patrimônio brasileiro com recursos mínimos. Vejo esse achatamento, a falta de recursos como um todo, o número reduzido de profissionais, a defasagem salarial, como parte de um grande programa de desmonte da cultura e patrimônio brasileiro, que leva, por exemplo, à falta de manutenção e política de prevenção adequadas, e que se traduz em tragédias como o incêndio do Museu Nacional e, mais recentemente, do Museu de História Natural da UFMG. Tal condição justifica ainda a gestão das Organizações Sociais como maneira de otimizar e agilizar processos institucionais, mas que no fundo é feita como um programa de negócios e não uma gestão de patrimônio. Esse é um problema profundo e pouco debatido na esfera da cultura brasileira, que tem tantas urgências. 

Gosto de trabalhar e circular nos dois ambientes, no institucional e independente. Porém, ter acesso à recursos maiores, quando atuo como arquiteta independente, é uma situação mais sedutora para quem cria e constrói espaços de exposições, pois me permite experimentações.

Não vejo diferença, como mulher negra, do machismo e misoginia na esfera institucional e independente. Estes se apresentam de maneira estrutural em todas as camadas.

NP – Vários casos de misoginia e machismo apareceram nos últimos anos nos espaços da arte, lembro do caso de uma funcionária do Moma PS1 que foi convidada a ocupar um cargo de curadoria mas, ao anunciar sua gravidez, foi dispensada. Você já presenciou ou vivenciou alguma situação no campo das artes em que sentiu tratamento diferente por ser mulher? Percebe algum caminho possível para amenizarmos tais problemas?

B.X. – Sim, já presenciei e vivenciei. No Brasil, quem disser o contrário, ou está mentindo ou não quer identificar o problema. No meu caso, por ser negra, é ainda mais grave. Dentro das instituições ou como colaboradores, vemos pouquíssimos profissionais pretos que tenham visibilidade, porque profissionais negres bons e capacitados temos aos montes. É bastante incômodo não ter pares, ser a única negra quando se trata da equipe criação de projetos, seja na esfera institucional ou como profissional independente, o que já ocorreu algumas vezes. Grande parte das atividades relacionadas à concepção e execução, desde a gerência institucional, a produção, a arquitetura, a pesquisa, são compostas por pessoas brancas. A grande maioria das exposições que fiz foi com homens brancos na curadoria.

A normalidade desta situação, a ausência de negros nos espaços de decisão e poder, além de ser um dado racismo estrutural brasileiro, espelha o contexto social contemporâneo, refletindo a sociedade brasileira como um todo, onde urge um desejo de mudança. Não acredito que haverá melhora significativa nesta questão se não for através de legislação, através de cotas em todas as esferas, desde conselhos de museus, cargos de liderança, etc. Temos que pressionar as instituições para posicionamento e mudança efetiva.

Creio que estamos vivenciando um momento importante de mudança, e pela primeira vez estou trabalhando em um projeto de exposição onde a equipe curatorial e de pesquisa, além da equipe de design e parte da produção é toda negra. Vejo esse momento como um divisor de águas, onde as estruturas estão sendo abaladas.

NP – Você é mãe e, assim como muitas mulheres possui uma jornada dupla e, por vezes até tripla. Encontrou ou encontra muitas dificuldades ou falta de compreensão por possuir esses múltiplos papéis? É possível formar redes de apoio para mulheres em situações semelhantes dentro das próprias instituições.

B.X. – Sim, a jornada é mesmo dupla, tripla. Encontrei sim algumas dificuldades e falta de compreensão e, por incrível que pareça, vindo de mulheres, o que me entristeceu ainda mais. A misoginia está impregnada estruturalmente na cultura brasileira. As redes de apoio femininas têm sido bastante inspiradoras e cada vez mais vejo mulheres se posicionando como mães e profissionais. Creio que temos que discutir estas questões na esfera pública como de âmbito social e não feminino. O acesso a rede de educação, o papel do estado na primeira infância, a desigual divisão do trabalho doméstico, da carga mental, as situações que colaboram com a dificuldade da mulher se manter competitiva na esfera profissional são questões que precisam ser refletidas por toda a sociedade e não deveriam ser vistas como de pautas femininas.

NP – Dos seus trabalhos de expografia, tem algum que foi mais marcante? Pode contar um pouco de como foi é o seu processo de trabalho.

B.X. – Eu gosto muito do meu ofício, sobretudo porque sempre aprendo muito sobre o tema com o qual estou em contato. No caso da exposição, cada projeto é único, com sua característica institucional e temática.

Colaborei, por exemplo, com a exposição itinerante, Revelações Olímpicas, em 2016, com uma expografia pensada para ficar no tempo, ao ar livre. A exposição mostrava imagens selecionadas do concurso de fotografia com o mesmo nome, cujo tema tratava dos impactos dos megaeventos esportivos nas comunidades do Rio de Janeiro: remoções forçadas, militarização das favelas, mobilidade limitada na cidade, elitização dos espaços públicos, além de outras violências e violações dos direitos. Foi montada primeiramente na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro e depois circulou por diversos lugares, como Museu da Maré, Vila Autódromo, e UFRJ. As discussões que aquela exposição gerou e o acesso proporcionado pelo sua circulação à pessoas que normalmente não frequentam galerias ou museus para ver uma exposição de fotografia, foi o que mais me atraiu neste projeto.

Tenho especial afeto pelas exposições nas quais colaborei com Paulo Herkenhoff, com quem sempre aprendo muito. Trabalhar junto ao Herkenhoff, além de me fazer adquirir um repertório vastíssimo sobre arte brasileira, me fez desenvolver habilidade especial para pensar criticamente exposições com um número grande de obras de diferentes artistas, grande circulação de pessoas, e com muita ênfase ao projeto educativo, às visitas escolares. Fizemos, juntos no MAR, duas exposições deste tipo com cerca de 300 obras e, com as mesmas características, a exposição de inauguração do SESC 24 de Maio, São Paulo não é uma cidade – com co-curadoria de Leno Veras – cujo resultado estético me agradou muito. Também gosto bastante da proposta estética e curatorial da exposição Lívio Abramo: Vigor e Lirismo, que montamos na Biblioteca Mário de Andrade (SP) e fez um panorama das obras do artista em diferentes fases.

Montagem São Paulo não é uma cidade (SESC 24 de Maio)

Outro projeto que considero bastante especial, por sua temática de resistência museal, foi a expografia para Arte Naif, nenhum museu a menos, de 2019, montada nas cavalarias da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nesta exposição, o desafio foi lidar com cerca de 300 obras do acervo do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil, combinados às obras de arte contemporâneas, com materialidades bastante distintas, pensadas na curadoria política de Ulisses Carrilho e equipe. Esta montagem foi uma importante exposição-manifesto, por seu caráter de denúncia em favor da manutenção das instituições culturais brasileiras e sua liberdade de expressão.

Normalmente os projetos têm duração de cerca de quatro a seis meses, entre elaboração e acompanhamento de execução. Tempo este que é curto para projetos de médio e grande porte, como os que normalmente faço. O ofício de arquitetura de exposições demanda trocas com múltiplas equipes, como de curadoria, produção, museologia, iluminação, tecnologia e equipamentos, cenotecnia e montagem, durante o processo. E inclui, além da pesquisa, algumas etapas de entrega de projeto, como estudo preliminar, anteprojeto, projeto e projeto executivo.

O momento da montagem da exposição é, para mim, muito especial, e comparável à um set de filmagem, onde apesar do planejamento minucioso de cenas e seus efeitos, muitas vezes o que vemos é mudado ou rearranjado no calor da cena, determinado por uma série de fatores como resposta à atuação dos atores ao roteiro, ângulo e movimento de câmera, iluminação, som, entre outros, onde os envolvidos no processo percebem, no momento da captação, qual seria o melhor encaminhamento para a narrativa daquela cena específica. Podemos dizer que a exposição também sofre rearranjos devido ao pensamento influenciado pelo choque, pensado à maneira de Eisenstein, obtido pela justaposição, a fricção de obras.

Ao pensar como se executa a montagem, podemos afirmar que a própria se performa como um gesto. O gesto de montagem é similar ao gesto de uma dança, assim como o pensamento, se movimenta em ziguezague, em busca de respostas inexistentes para questões inquietantes.

Bel Xavier Arquiteta, diretora de arte e mestranda em Artes Visuais, mescla a prática da direção de arte de projetos culturais, nas áreas de cinema, exposições, à pesquisa e ensino atuando nas esferas públicas e privadas.
http://www.belxavier.com/

Artes + Feminismos I Arte e Arquivo – julho de 2020

Artes + Feminismos I Arte e Arquivo – julho de 2020

Com eventos bimestrais, a maratona Edit-a-thon Artes + Feminismos tem o objetivo de aumentar a presença feminina na Wikipédia, seja nos verbetes ou na edição da ferramenta. O próximo encontro acontece nos dias 18 e 19 de julho, sábado e domingo, a partir das 14h, […]

Chamada aberta PAMA | Revista Desvio

Chamada aberta PAMA | Revista Desvio

Em acordo com as propostas da coletiva curatorial NaPupila, divulgamos a chamada aberta do grupo de Pesquisadoras sobre Arte e Artistas Mulheres na Academia (PAMA) da Revista Desvio.   O grupo PAMA contará com 10 encontros semanais e ocorrerá de modo virtual, entre os meses de agosto e outubro de 2020, através de videoconferência. […]

ENTREVISTAS

ENTREVISTAS

Conversar, trocar, compartilhar, todos são verbos de ação que incluem dois ou mais indivíduos no ato. Precisamos dividir, escutar e, assim, conseguimos aprender e compartilhar ensinamentos. Criamos uma seção no site do NaPupila de entrevistas para ser um espaço de troca. Troca entre nós, entrevistadores e entrevistados, trocas entre vocês, que nos leem, e possibilidades de gerar novas formas de interação, para além de apenas curtidas e likes.

As entrevistas se dividem em dois ramos: os das artistas e o das profissionais das artes. As entrevistas com as artistas serão conduzidas em conjunto com o grupo de pesquisa coordenado pela coletiva NaPupila. As pesquisadoras participantes, partindo de seus interesses e desejos, realizaram conversas com artistas contemporâneas que serão postadas no site com regularidade. O segundo ramo é ligado as profissionais da arte que nem sempre são visíveis pelo grande público mas são fundamentais para que a obra seja realizada, as instituições funcionem e que a arte esteja disponibilizada para todes.

Howard S. Becker, em seu livro Mundos da Arte, evidencia que, para a realização de qualquer tipo de arte é necessário um mundo de profissionais por trás de um artista, de uma instituição, de um performer. Evidenciar tais profissionais auxilia a quebrar com o dogma que o artista é solo e que não é necessária a manutenção de diferentes redes para a produção e circulação do trabalho artístico. Inauguramos a seção com a entrevista de uma profissional das artes.

A entrevista, conduzida por Julia Baker, integrante da
NaPupila, foi com Mayra Brauer. Formada em museologia, atua na área há mais de dez anos com experiências em museus e instituições culturais. Seja na Reserva Técnica, montagem de exposições ou catalogando obras de arte, Mayra está sempre com um sorriso, pronta para auxiliar seus colegas e o público.

Tive o prazer de trabalhar com ela por alguns anos e presenciava diariamente sua dedicação e amor pelo seu trabalho. Na entrevista, podemos não apenas conhecer sua trajetória profissional mas, também, percebemos como o papel da mulher deve ser problematizado nas instituições e em profissões que, não por acaso, lhes é dado o protagonismo.

NAPUPILA Nosso primeiro passo é pedir que nos conte um pouco de você. Como se deu seu início no mundo das artes. Por que a escolha de sua profissão – a museologia? O que é a museologia, como você atua nesse campo e quais possibilidades existem na profissão.

MAYRA BRAUER  – Minha relação com a arte vem desde criança. Estudei em escolas abertas e participativas, onde os alunos e famílias, professores e funcionários estavam envolvidos nos processos de ensino/aprendizagem, utilizando as mais variadas metodologias. Além desse processo de formação educacional, cresci no meio das artes. Por ser filha de museólogo, museus, exposições e obras de artes, já faziam parte da minha rotina. Não fui influenciada diretamente pelo meu pai, mas naturalmente o universo já me encantava e, neste sentido, acredito que sim, que ele tenha me ajudado na escolha profissional, mesmo que involuntariamente.

Em 2002, entrei para a Escola da Museologia, pela UNIRIO, e pelo menos meu pai conseguiu me ver entrar em uma faculdade pública, pois faleceu no ano seguinte. Foram quatro anos de curso, muita dedicação, estudo, militância, estágios e consegui me formar no fim de 2006, com a colação de grau no início do ano de 2007.

A Museologia, em seu sentido mais amplo, é a relação específica entre o humano e a realidade. É uma ciência que pensa o museu envolvendo o objeto, a coleção e a exposição em um contexto social, trabalhando no campo das experiências práticas e reflexões teóricas ligadas a todos os processos sociais. O museólogo é o profissional que se dedica à classificação, à conservação e à exposição de peças de valor histórico, artístico, cultural e científico. Temos como missão transmitir e divulgar conhecimento, desenvolvendo ações culturais sobre os acervos, planejar e executar documentações, administrar as coleções, promover o intercâmbio de peças com outros museus (empréstimos), gestão (planejando na execução e acompanhamento de projetos e políticas públicas relativas ao patrimônio histórico e cultural), organização de exposições (analisando a melhor forma de dispor e apresentar as peças). Podemos atuar em: Museus, Galerias de Arte, Institutos de Pesquisa, Centros de Documentação e Informação, Escolas, Universidades, Centro de Ciências e Tecnologia, Jardins Botânico, Zoológicos, Aquários e Planetários, Parques e Reservas Naturais, Sítios Históricos e Arqueológicos, Pequenas, médias e grandes empresas, Coleções Públicas e Particulares, Produtoras de vídeo e TV, Arquivos, Bibliotecas, Teatros, etc.

Desde 2013, estou na equipe de Museologia do Museu de Arte do Rio (MAR) no cargo de museóloga responsável pelo inventário da coleção museológica, os procedimentos internos da Reserva Técnica, recebimento de entrada de obras (doações) e também pelos processos que envolvem as exposições.

NP- Na sua trajetória profissional, você percorreu diferentes instituições. Pode contar um pouco das diferenças e semelhanças de cada uma delas, em relação a sua atuação profissional.

M.B. – Atuo no campo da museologia desde o primeiro estágio, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC/Niterói), e logo que me formei fui convidada a assumir o cargo de Coordenadora de Exposições. Tive a oportunidade de trabalhar também em projetos nas seguintes Instituições: Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) e Museu da Imagem e do Som (MIS). Como Coordenadora de Exposições no MAC/Niterói, além de todo o processo básico do profissional de museologia, como: acompanhar a curadoria na pesquisa à coleção, verificação do estado de conservação das obras, higienização, confecção e elaboração dos laudos técnicos e acompanhamento das obras com a equipe de montagem até o espaço expositivo/local definido na exposição; era necessário fazer também todos os processos burocráticos da Instituição (contratação de montadores, aprovação e definição de layout dos materiais gráficos e recebimento das equipes de plotagem). Isso porque, na época, éramos pouquíssimos profissionais na equipe, apenas três museólogas (grandes profissionais que me ensinaram muito do que sou hoje, Angélica Pimenta e Márcia Muller) para cuidar de uma coleção grande e de todos os processos museológicos. Portanto, ao finalizar uma montagem de exposição, as novas etapas de um novo Projeto já se iniciavam imediatamente.

No MNBA, o acervo é dividido por coleções (pintura, desenho, escultura, gravura, mobiliário, etc) e um museólogo chefe atua como curador desta coleção. Eu tive a oportunidade de trabalhar no Setor de Pintura e Desenho Brasileiro (com um grande mestre, Pedro Xexéo, que sempre tinha uma história para contar de cada item da coleção e eu, óbvio, ouvia atentamente cada palavra), onde atuava com a pesquisa da coleção, realizando a catalogação e também o recebimento de pesquisadores ao acervo. No MIS, eu participei de um projeto, também de catalogação, do acervo audiovisual. Éramos muitos profissionais, áreas interdisciplinares, atuando juntos. Foram meses de dedicação de pesquisa e muitas parcerias. Em ambos os projetos atuei como museóloga, mas de uma maneira diferente, e é essa diversidade que mais me encanta na minha profissão, além de me proporcionar muitos contatos e conhecimentos por onde passo.

NP- Como você vê a inserção das mulheres no campo das artes. A sua profissão já tende a ser majoritariamente feminina, por que acha que isso ocorre?

M.B. – No campo das artes vejo muitas mulheres atuando e acho importantíssimo o nosso papel. Nós, mulheres, além de lutar diariamente por direitos iguais, conseguimos trabalhar em vários projetos ao mesmo tempo, seja ele profissional ou pessoal. E melhor, ainda sorrimos. Sei lá, já nascemos com isso, uma espécie de aptidão mesmo (rs).

Quanto à museologia ser majoritariamente feminina, me recordo de um artigo que li do Professor Bruno Brulon, do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), que nos anos de 1940, numericamente, era maior a presença de mulheres nos cursos de museologia, pois os primeiros programas para a formação de profissionais a serem criados no mundo não se propunham a formar diretores de museus/museólogos/administradores, mas sim “assistentes” para atuar nos museus. Por essa razão, as primeiras escolas eram destinadas a “jovens mulheres” que seriam treinadas para realizar as funções básicas de organização, manuseio, classificação e catalogação de objetos de museus. Olha o machismo aí! (que raiva). Não sei, mas acredito que por serem tantas mulheres atuando juntas, com a mesma formação e pensando o museu, elas conseguiram chegar aos cargos técnicos e mais altos das instituições e continuarem atuando atuando desde seus primeiros anos até os dias atuais, e sendo respeitadas.

NP – Você acha que “trabalhadores invisíveis” que fazem os museus (museólogas, educadores, montadores, seguranças, produção, limpeza, etc) são reconhecidos? Como poderiam ser mais reconhecidos e ter sua participação mais visível?

M.B. – Eu sempre digo que o trabalho do museólogo é invisível, os processos sãos gigantes, muitas atividades, mas que ainda falta muito reconhecimento. Trabalhar no museu é ter todo dia um aprendizado, é árduo, mas também é tentador. Museus são muito mais do que espaços de preservação do passado, é presente e é futuro. Nós, museólogos, possuímos uma característica única: “somos heróis”, exercemos com muita determinação e não desistimos. Nesses 13 anos de profissão vi de perto as dificuldades de manter um museu aberto, em movimento, vivo.

Gostaria muito de ver a profissão do museólogo mais respeitada, o que não é fácil em um país que não valoriza sua própria cultura, e no momento atual que estamos vivendo (crises, intolerância religiosa, censuras, pandemia, etc.) precisamos continuar acreditando nos museus, que são lugares que tem compromisso social e desenvolvem uma ação ativa na sociedade. Muitos museus no exterior já estão decidindo como a pandemia será lembrada, fotografias, objetos e obras de arte já vem sendo reunidas para formar as memórias desta época. Penso que todo corpo técnico de um museu merece ser ouvido, assim como seus visitantes. Essa troca que faz do museu um lugar de escuta e fala.

NP Dados mostram que a maneira como as mulheres ocupam os museus e demais espaços das artes nunca se dá em cargos altos. Também, se formos ver as coleções dos grandes museus, a quantidade proporcional de mulheres artistas nas coleções sempre parece bem reduzida em relação à presença de artistas masculinos. Queria saber o que você pensa disso. Acha que existe algum mecanismo para mudarmos tal cenário? Sente que as mulheres percebem essas discriminações?

M.B. – Sim, com toda certeza as mulheres percebem essas diferenças. Elas estão ali na nossa frente, não tem um único dia que não convivemos com isso.

Por trabalhar diretamente com as coleções, alimentando informações nos banco de dados e recebendo as doações, é impossível não ver que as mulheres/artistas são minorias e, mesmo fazendo campanhas ou projetos de exposições e doações de obras de arte feitas por mulheres, a quantidade de obras numa coleção em constante crescimento é normalmente de autoria masculina, o que faz com que numericamente a porcentagem não mude, infelizmente.

Além disso, penso, do que adianta essa representatividade nas coleções numericamente se não há visibilidade? Muitas obras das artistas mulheres nunca foram expostas. Precisam ser vistas, estudadas, sentidas por todos. Acredito que, para o momento político social que a gente vive, é muito importante que estejamos unidas. Temos que deixar de ser “números”, precisamos ser vistas, mas não em apenas um movimento e sim por toda vida.

Mayra Brauer – Museóloga, formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/UNIRIO (2007). Tem um papel de relevância em Museus de Arte. Foi integrante de grandes Instituições Museológicas do Rio de Janeiro, como Museu de Arte Contemporânea de Niterói/MAC, Museu Nacional de Belas Artes/MNBA e Museu da Imagem e do Som/MIS. Desde de 2013 é museóloga do Museu de Arte do Rio/MAR, onde desenvolve as atividades de metodologias dos processos do inventário, documentação museológica e responsável pelos processos interno da Reserva Técnica. 

Colírio | Micro críticas

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